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A missão de levar outros a "ouvir com os olhos" nestes tempos de pandemia

  • Adelsa Tavares traduzindo comunicação do Primeiro-ministro
  • Adelsa Tavares traduzindo comunicação do Presidente da República
  • Adelsa Tavares traduzindo comunicação de Artur Correia
02 Jun 2020 Sociedade

É cansado, desafiante, mas gratificante. É este o sentimento de Adelsa Tavares, professora de Língua Gestual, que desde o início da pandemia tem servido de intérprete nas comunicações das entidades públicas.

Em conversa com a Rádio de Cabo Verde, Adelsa Tavares diz que nunca se deu tanta importância aos surdos e mudos como se está a dar neste período da pandemia da covid-19.

A tradução para a linguagem gestual fez com que muitos surdos tivessem,
neste período da pandemia, acesso às informações. Esta inclusão dá-se diariamente graças à intérpretes como Adelsa Tavares, que diz ser um trabalho gratificante.

“Nem sei explicar como me sinto cada vez que estou sentada a fazer esse trabalho. É muito gratificante, primeiro porque é algo que gosto muito de fazer, segundo porque sei que essa informação é muito importante para a classe dos surdos que só dependem da linguagem gestual.”

Adelsa Tavares é hoje intérprete da língua gestual nas salas de aula, mas conta que a paixão pela tradução começou com uma curiosidade.

“Comecei a trabalhar com uma das primeira pessoas a fazer trabalhos com surdos em Cabo Verde. Fui aprendendo com base na curiosidade, ajudava-a a preparar aulas e os materiais, ela mesma me ajudava pegando nas minhas mãos, ajudando-me a fazer determinados movimentos, não era facial.”

De uma simples paixão, Adelsa Tavares viu-se obrigada a formar-se em Língua Gestual para ajudar na escolarização dos surdos e mudos. Hoje é também tradutora e preocupa-se para além da televisão, a traduzir reportagens, comunicados, a colocar e a responder dúvidas do seu público-alvo nas redes sociais.

“No início da pandemia, os surdos não tinham acesso à informação. Era na escola, quando nós nos encontrávamos, que eles me perguntavam o que se estava a passar. Então explicava o que era esse vírus, fazia minhas pesquisas e informava-os das mortes que estava a provocar. Na altura, sequer ainda a pandemia tinha atingido Cabo Verde. E quando aqui chegou, a turma já tinha ido de férias. Então vi que os alunos ficavam sem acesso à informação. Um colega disse-me que tinha uma cartilha e sugeriu-me traduzi-la na linguagem gestual e partilhá-la para a turma.”

E foi com a publicação de uma tradução nas redes sociais que Adelsa Tavares foi chamada para, diariamente, traduzir as comunicações que o Governo e as autoridades de saúde fazem ao país sobre a COVID_19. Um período, diz Adelsa, em que mais atenção se está a dar aos surdos e mudos.

“O único meio que os surdos tinham para ter acesso á informação na comunicação social era o Jornal da Noite da TCV. Agora é a primeira vez que as pessoas estão a ter em conta a necessidade de levar informação geral aos surdos.”

A tradutora em linguagem gestual diz que ama o que faz e enquanto o faz fá-lo com segurança e atenção máxima para fazer chegar a informação. Mas diz também que é cansado e desafiante.

“É cansado, no meu caso já passei por problemas na coluna vertebral, às vezes sentimos dores nas articulações. Se estivermos sentados num local não muito confortável, sentimos muitos problemas. É um desafio, temos de estar preparados, a que ter cultura geral, porque não se trata apenas de ouvir, é preciso conhecer também a língua portuguesa.”

Às autoridades nacionais Adelsa Tavares apela para que haja mais acessibilidade para todas as pessoas com deficiência.

Hermen Alfredo, RCV/Praia
Editado por Benvindo Neves



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