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Da agonia ao alívio: experiências de quem veio de fora e teve de ficar fechado num hotel


08 Abr 2020 Sociedade

Antes agonia e agora alívio e alegria. São expressões que descrevem o sentimento de duas pessoas no início e no fim da quarentena em dois hotéis, um na Cidade da Praia e outro no Sal. Dizem-se expectantes agora que aproxima o momento da saída.
Por Hernen Alfredo

Cirinela Pires está grávida. Veio de Portugal e cumpre o último dia de quarentena no Sal. A jovem espera uma decisão acerca da sua saída do hotel Salinas, agora que está a terminar o periodo de quarentena.

Mais certeza tem Cipriano Carvalho, que sai esta quarta-feira do Hotel Trópico, na Praia. Diz ter aprendido muito com esta experiência de confinamento que considera ser uma "boa medida" do Governo para travar o contágio no país.

Na vida, tudo tem uma primeira vez. No caso de Cipriano Carvalho, veio de Portugal no último voo do dia 24 de Março. Teve de, obrigatoriamente, passar pela experiência de confinamento.  No início não foi fácil, mas diz que foi-se habituando e arranjando formas de passar o tempo no quarto do hotel.
“Logo nos primeiros dias foi muito difícil adaptar à um sistema confinado dentro dum quarto. Ma,s passados três ou quatro dias comecei a adaptar-me e a criar as minhas próprias condições, como por exemplo fazer exercícios físicos, leituras, jogar xadrez no computador, etc.”

Se difícil foi para Cipriano Carvalho, angustiante foram os dias de confinamento para Cirinela Pires. Grávida de 35 semanas, ela espera ansiosa pela decisão da sua saída do Hotel Salinas, no Sal.
“A minha agonia é, por exemplo, amanhã dizerem-me ‘olha, vais ter de ficar mais dois ou três porque não tratamos nada’. Estou mais sensível que nunca, mas já estou um bocado mais aliviada, porque está. Foram dias muito complicados, uma pessoa quase que enlouquece no quarto, fica mesmo enjoada de tudo e de todos” 

Durante a quarentena, tanto Cirinela quanto Cipriano garantem que houve cuidados redobrados e acompanhamento de perto e permanente por parte dos profissionais de saúde. “Houve visitas de médicos e de enfermeiros ao hotel, para atender as pessoas que eventualmente tivessem alguma complicação. Telefonavam para cada um dos quartos a perguntar sobre o estado de saúde, complicações, sintomas, etc”, contou Cipriano com um tom de quem está satisfeito com o tratamento.

Igualmente animada com o acompanhamento esta Cirinela, no Sal:

“A comida é posta na porta do quarto, se precisarmos de alguma coisa basta ligarmos que vêm cá trazer. O quarto somos nós que limpamos. Temos aqui uma enfermeira de manhã até as 20h00, qualquer coisa, ligamos para ela e só temos contactos via telefone”. Enquanto grávida, Cirinela tem as suas consultas em dia e a disposição da equipa de saúde em ajudar. Isolada no quarto, ela procurava falar todos os dias, por telefone, com alguém ao lado . “Tenho falado com uma senhora de um outro quarto, falamos por telefone. Ela já tem uma certa idade, não está a ser fácil para ela, nem para mim também”.

Prestes a sairem da quarentena, Cipriano Carvalho e Cirinela Pires, que vieram de Portugal, sabem dos cuidados a ter em casa, apesar de a emoção à chegada querer falar mais alto. No caso de Cirinela, diz que são dias a mais longe da família. “Como estou a vir de Portugal, tenho de ter mais cuidado, não devo manter contacto com ninguém. Eu nem sei como vai ser quando chegar à São Vicente, porque a minha vontade vai ser abraçar a minha mãe e meu irmão. Estou consciente de que não posso fazer isso, sei dos cuidados que devo ter mas acho que a emoção vai falar mais alto, afinal já é mais de um ano sem ver minha mãe”.

Menos ansioso parece estar Cipriano: “Eu vou sair agora da quarentena, naturalmente vou fazer a quarentena em casa e passado esse tempo regressarei a minha actividade normal”, declarou em conversa coma RCV.

Com esta situação todos aprendemos, e uma dessas lições é protegermo-nos a nós e aos outros. E para isso, Cipriano deixa um apelo, como base naquilo que ja conhece: “Em Portugal eu vivi e vi a situação da pandemia. Pude ver como é horrível, testemunhei pessoas a sofrer. Por isso, o apelo que faço às pessoas é que aceitem as recomendações, fiquem em casa e sigam as instruções das autoridades sanitárias”.

Do Hotel Trópico, na Praia, Cipriano tem a certeza de que sai da quarentena esta quarta-feira. Ja Cirinela Pires, assim como outras pessoas no Hotel Salinas, espera ainda uma decisão das autoridades.

Reportagem RCV, Hermen Alfredo
Editado e disponibilizado online por Benvindo Neves



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